quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Você


 Eu tenho praticado o exercício de olhar pra dentro de vez em quando. Sempre quando sozinha, na rua, a caminho da escola, enquanto os carros passam, me coloco em meu lugar naquele espaço. Me encontro ali, e só assim, me sinto ali, dentro de mim. Se sou memória, sou muito pouco, e muito triste. Mas se sou futuro, sou distante e imprevisível. Tento então, ser presente. Futuro e passado são assim, extensões de mim.
 Você tem de continuar por um motivo. Tem de seguir em frente, por algo. Mas não faça isso só por si. Procure razões além de si mesmo, para travar a luta que é ser você. Você não é, se não um conjunto de pessoas e memórias, antes e agora. Se olhares pra ti, enxergarás aquilo que cada pessoa amada deixou em você. Você é as muitas marcas que te marcaram. Faze bem ao outro, porque estás marcando-o. Não fuja de si mesmo, dos seus contratempos, desencontros interiores, não fuja da discórdia e do caos pacífico que é teu interior. Não deixe ruir, aquilo que desde teu primeiro choro vêm sendo construído. Não deixe escapar a alma, mas não a prenda numa gaiola. Cultive-a, e ela ficará. E viverá. Será livre. Será maior que você. Porque és o que ela é, e o que dela restar se a matar. Por ventura, matar-se-á a alma? Sim. Quando ela não flui mais, quando não a acariciamos com poesias, amores, boa música, quando a calamos e esperamos que ela sobreviva à frieza do nosso coração. Culpa nossa, que nos enfiamos em amores incertos, paixões desertas, teimamos no dia nublado, quando há tantos outros para se viver. Diga-me, dos poucos anos que vivestes, quantos anos tem a sua alma? 

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